Quarta-feira, 8 de Julho de 2009

Alto Douro Vinhateiro 2

 

Soa o apito. Há um rápido retorno às carruagens. Um impulso mecânico, inicialmente tímido, torna-se mais afoito. O comboio parte em direcção à estação de Foz Tua. São pouco mais de 12 quilómetros que valem cada metro em história. Estamos no coração de uma paisagem reconhecida em 2001 pela UESCO como Património da Humanidade, na categoria de paisagem cultural. O movimento da locomotiva agarra punhados de ar e carrega-nos para uma viagem de frescura. O rio está perto, correndo num movimento quase imperceptível. Actualmente, salvo as cheias das invernias mais severas, o Douro é um rio plácido, amaciado pela necessidade histórica de o tornar um elo seguro e eficaz de ligação comercial. O desnível do rio favoreceu um dos grandes empreendimentos do Douro, a construção de barragens como as do Picote, Bemposta, Pocinho, Valeira, Tabuaço, Régua, Carrapatelo.
Domou-se o rio selvagem que fazia temer e suplicar quem o subia. Um rio que dragou muitas vidas e tornou alguns naufrágios célebres, como o do barco onde viajavam Dona Antónia Ferreira (que para a posteridade ficaria conhecida como A “Ferreirinha”) e o Barão de Forrester. Conta a voz popular que ter-se-á salvo a primeira figura graças às saias em balão e sucumbido a segunda, carregado com moedas de ouro no cinto.
Rápidos, “saltos”, caudais violentos, rochedos à superfície, leitos pedregosos; o Douro foi sempre natureza extrema. Frequentemente o fio de água dos verões secos tornava-se um tormento de águas em fúria no Inverno. Era uma época em que o Douro não era turismo, antes sim um elo de intercâmbio entre o litoral e o interior. A viagem era lenta. Levava-se quatro a oito dias, dependendo dos humores das águas, para percorrer os cerca de 100 km de distância entre o Porto e a Régua. O percurso impunha a presença de estalagens, vendas, quintas, para abrigo dos passageiros. Os cais agitavam-se com o afã dos barcos rabelo, verdadeiros conquistadores do Douro e símbolo do rio e do transporte do Vinho do Porto. Um símbolo exibido, hoje em dia, no Cais de Gaia. A navegação rio acima faz-se actualmente de forma bem diferente e com fins essencialmente turísticos.
Cruzamo-nos com algumas das modernas embarcações que singram o rio. Ao apito do comboio responde o troar poderoso da sirene do barco de cruzeiro. Um diálogo cúmplice entre duas épocas. Aqui, ao ritmo preguiçoso marcado pela locomotiva, custa-nos crer, que esta dormência de vapor tivesse acelerado o compasso das mudanças. O caminho-de-ferro alterou profundamente a região. As viagens tornaram-se mais rápidas, o comércio intensificou-se. O Douro não voltaria a ser o mesmo.

 



 

publicado por douro1 às 13:19
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